Sobre a obra
Um homem se fecha em seu quarto e decide confessar tudo aquilo que normalmente esconderia até de si mesmo. Assim começa Memórias do Subsolo, uma das obras mais provocadoras de Dostoiévski e um ponto decisivo para compreender a literatura moderna. O narrador, um ex-funcionário público de quarenta anos, é inteligente, ressentido, contraditório e dolorosamente consciente das próprias fraquezas. Em seu longo monólogo, ele ataca a ideia de que o ser humano possa ser explicado apenas pela razão, pelo interesse ou por fórmulas capazes de prever seu comportamento. Para ele, sempre haverá alguém disposto a escolher aquilo que lhe faz mal simplesmente para provar que continua livre. A primeira parte, “O subsolo”, mergulha nessa consciência que pensa demais, transforma cada decisão em dúvida e encontra até no sofrimento uma forma de prazer.Na segunda, “A propósito da neve molhada”, as ideias ganham corpo em episódios da juventude do narrador: a obsessão por um oficial que o ignorou, um jantar desastroso com antigos colegas e, sobretudo, o encontro com Liza, jovem diante da qual ele revela simultaneamente sua capacidade de compreender o sofrimento alheio e sua incapacidade de receber amor sem transformá-lo em humilhação. Publicado em 1864, o livro confronta diretamente as utopias racionalistas de seu tempo e antecipa temas que Dostoiévski desenvolveria depois em Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov. Esta edição apresenta tradução integral de Renato Barbosa para o português brasileiro atual, feita a partir da versão inglesa de Constance Garnett de 1918 e cotejada com o original russo. Inclui introdução, nota sobre a tradução e posfácio, além das duas partes e dos 21 capítulos preservados conforme a estrutura original.